Dobras do dia "historia sobre emprego"
- angelitaconzi
- há 23 horas
- 8 min de leitura
É sobre uma mulher que olha pra trás e vê como o pai dela, um operário, nunca conseguiu subir na vida. Mas tem uma parte que fala dela mesma, jovem, procurando emprego e sentindo que o mundo não quer ela.
"Eu tinha vinte anos. Eu queria trabalhar. Não porque eu gostasse, mas porque eu precisava.
Fui pra uma loja de roupas. A dona me olhou de cima a baixo.
— Você tem experiência?
— Não.
— Tem diploma?
— Não.
Ela riu.
— Então pra quê você veio?
Eu não respondi.
Ela me deu um avental.
— Experimenta.
Eu vesti. Era grande demais.
— Tá bom. Pode começar amanhã. Mas não espere muito. Aqui ninguém fica.
Eu comecei. Dobrava camisas. Atendia clientes. Sorria quando me mandavam sorrir.
À noite, eu voltava pra casa. O pai me olhava.
— E aí?
— Tô trabalhando.
Ele assentiu.
— Melhor que nada.
Mas eu sabia: não era melhor. Era só… diferente.
Eu não queria ser como ele. Mas eu já era.
Só que eu ainda tinha tempo.
Tempo pra mudar.
Ou pra não mudar.
Eu não sabia."
Quer que eu continue? Ou quer que eu leia outra parte?
Ok.
Os dias na loja eram longos. Eu chegava às oito, saía às sete. Dobrava, arrumava, atendia.
Uma tarde, uma cliente veio. Mulher rica, perfume forte.
— Essa blusa tem tamanho maior?
Eu procurei.
— Não, senhora. É só até o quarenta.
Ela bufou.
— Você não sabe nada, né?
Eu abaixei a cabeça.
— Desculpe.
Ela foi embora.
A dona viu.
— Não liga. Elas falam assim.
Mas eu liguei.
À noite, o pai perguntou:
— Cansou?
— Canso.
— Todo mundo cansa.
Ele acendeu um cigarro.
— Mas você continua.
Eu continuei.
Porque parar era pior.
Porque, no fundo, eu queria provar.
Provar pra quem?
Pra mim.
Pra ele.
Pra ninguém.
Eu só queria que o dia passasse sem me quebrar.
E passava.
Devagar.
Mas passava.
Ok.
Um dia, eu vi uma placa na janela da loja: "Procura-se caixa. Experiência não obrigatória."
Eu fui até a dona.
— Posso tentar?
Ela me olhou.
— Você mal fala com cliente.
— Eu falo o necessário.
Ela pensou.
— Tá bom. Amanhã você treina.
Eu treinei. Aprendi a registrar. A dar troco. A dizer "obrigada" sem tremer.
Na primeira semana, errei duas vezes. A dona gritou.
— Presta atenção!
Eu prestei.
Depois, acertei.
Uma cliente veio. A mesma mulher rica.
— Essa blusa tem tamanho maior?
Eu olhei.
— Não, senhora. Mas tem essa aqui, que fica melhor.
Ela pegou.
— Ah. Tá bom.
Pagou.
Saiu.
A dona me viu.
— Você falou.
— Falei.
Ela não sorriu. Mas não gritou.
À noite, o pai me perguntou:
— Melhorou?
— Melhorou.
Ele apagou o cigarro.
— Então você não é como eu.
Eu não respondi.
Mas pensei: "Talvez eu seja. Só que eu ainda tô tentando."
Ok.
Os meses foram passando. Eu não era mais a menina que tremia na frente da dona. Eu era a caixa que dava troco sem erro, que atendia sem pedir desculpa.
Um dia, a loja teve promoção. A dona chamou todo mundo.
— Vamos abrir mais uma filial. Preciso de alguém pra gerenciar.
Eu não levantei a mão.
Mas ela olhou pra mim.
— Você.
Eu pisquei.
— Eu?
— Você. Você não fala muito, mas faz o que tem que fazer.
Eu aceitei.
Comecei na nova loja. Mesas novas. Cheiro de tinta fresca.
Eu contratava. Eu organizava. Eu dizia "bom dia" sem medo.
Uma tarde, o pai veio me visitar.
Ele ficou na porta, olhando.
— É aqui que você trabalha?
— É.
Ele entrou. Tocou uma prateleira.
— Tá bonito.
Eu sorri.
— É só uma loja.
Ele balançou a cabeça.
— Não é só. É sua.
Ele saiu.
Eu fiquei.
À noite, eu fechei a porta. Apaguei a luz.
E pensei: "Eu não sou como ele. Mas eu também não sou melhor. Eu sou só… eu. E isso já é suficiente."
Ok.
O tempo foi virando. Eu não era mais a menina da loja. Eu era a gerente. Tinha uma mesa. Um telefone. Um nome na porta.
Mas eu ainda acordava cedo. Ainda tomava café preto. Ainda dobrava as mangas da blusa antes de sair.
Um dia, uma moça nova entrou. Jovem. Olhos baixos.
— Eu vim pra vaga de caixa.
Eu a olhei.
— Tem experiência?
— Não.
— Tem diploma?
— Não.
Eu sorri.
— Tá bom. Experimenta.
Ela vestiu o avental. Era grande demais.
Eu disse:
— Não liga. A gente ajusta.
Ela começou. Dobrava. Atendia. Tremia.
À noite, ela veio me perguntar:
— Eu faço direito?
— Faz.
Ela respirou.
— Obrigada.
Eu pensei: "Eu já fui assim. Eu já tremi. Eu já achei que não cabia."
Mas eu cabia.
E ela também.
Eu fechei a loja. Apaguei a luz.
E pensei: "A gente não precisa ser perfeita. Só precisa continuar. E um dia, alguém vai ver que a gente vale."
Ok.
Os anos passaram. A loja virou duas. Depois três. Eu não era mais só gerente — eu era dona. Não porque eu quis ser rica. Porque eu quis ser livre.
Um dia, o pai veio de novo. Mais velho. Mais quieto.
Ele ficou na porta, como sempre.
— Tá grande, hein.
— Tá.
Ele entrou. Olhou as prateleiras. Tocou uma blusa.
— Você comprou isso?
— Eu.
Ele assentiu.
— Eu nunca comprei nada.
Eu não respondi.
Ele ficou quieto. Depois disse:
— Eu tava errado.
— Sobre o quê?
— Sobre tudo. Eu achava que você ia ser como eu.
Eu olhei pra ele.
— Eu sou como você. Mas eu não parei.
Ele baixou os olhos.
— Eu parei.
Eu peguei a mão dele.
— Então agora você vem aqui. Todo dia.
Ele me olhou.
— Pra quê?
— Pra ver. Pra ajudar. Pra não parar.
Ele não disse nada.
Mas no dia seguinte, veio. Sentou na caixa. Dobrou uma camisa.
Eu sorri.
— Bem-vindo.
Ele não sorriu.
Mas ficou.
E a gente continuou.
Juntos.
Não porque a vida ficou perfeita.
Mas porque a gente decidiu que cabia.
Ok.
A gente não falou mais sobre o passado. Não precisava.
Ele veio todo dia. Dobrava. Atendia. Às vezes errava o troco, às vezes esquecia o nome do cliente.
Eu corrigia.
— Pai, assim.
Ele assentia.
— Tá bom.
Uma tarde, uma cliente perguntou:
— É seu pai?
Eu disse:
— É.
Ela sorriu.
— Que bonito.
Ele ouviu.
Não respondeu.
Mas depois, quando fechamos, ele disse:
— Eu nunca pensei que ia ter um lugar assim.
Eu respondi:
— Você tem.
Ele olhou pra mim.
— Você me deu.
Eu balancei a cabeça.
— Não. Você veio.
Ele ficou quieto.
E a gente continuou.
Não era história de cinema. Não tinha música de fundo.
Era só dois humanos.
Um que parou.
Um que não parou.
E os dois, no final, ainda ali.
Dobrandos camisas.
Fechando a loja.
Respirando.
Ok.
E assim foi. A loja virou rotina. Ele chegava às oito. Eu chegava às sete e meia. A gente tomava café juntos — sem falar muito.
Um dia, ele trouxe um rádio velho.
— Pra tocar música.
Eu ri.
— Tá bom.
Ele ligou. Uma canção antiga. Ele cantarolou baixinho.
Eu não conhecia a letra.
Mas ouvi.
À noite, quando fechávamos, ele dizia:
— Amanhã de novo.
Eu respondia:
— Amanhã.
E a gente ia embora.
Um dia, ele não veio.
Eu esperei.
Depois liguei.
— Pai?
— Tô doente.
Eu fechei a loja. Fui pra casa dele.
Ele tava na cama. Fraco.
— Você não precisava vir.
— Precisava.
Eu fiz sopa. Sentei do lado.
Ele olhou pra mim.
— Eu nunca disse…
— Eu sei.
Ele fechou os olhos.
— Obrigado.
Eu segurei a mão dele.
— Obrigada eu.
Ele dormiu.
Eu fiquei.
E pensei: "A gente não conserta o passado. Mas a gente pode ficar. Até o fim."
Ele acordou.
— Amanhã eu volto.
Eu sorri.
— Amanhã.
E a gente continuou.
Ok.
Ele voltou. Não no dia seguinte — dois dias depois. Mais magro. Mais lento. Mas veio.
Sentou na caixa. Dobrou uma camisa.
Eu disse:
— Pode ir devagar.
Ele balançou a cabeça.
— Não. Quero fazer direito.
Ele fez.
Uma cliente entrou.
— Bom dia.
Ele respondeu:
— Bom dia.
Ela comprou.
Ele deu o troco. Sem erro.
Eu olhei.
Ele me viu olhando.
— O que foi?
— Nada.
Ele sorriu.
— Eu tô vivo.
Eu assenti.
— Tá.
E a gente seguiu.
Não tinha mais pressa.
Não tinha mais medo.
Só o dia.
O rádio tocando baixo.
O cheiro de tecido novo.
E dois humanos.
Continuando.
Porque parar nunca foi opção.
Só respirar.
Só ficar.
Ok.
E os dias viraram meses. Ele não melhorava. Mas não piorava.
Chegava. Sentava. Dobrava.
Eu ficava do lado.
Às vezes ele parava.
— Tô cansado.
— Então descansa.
Ele não descansava.
— Eu quero ficar.
Eu deixava.
Uma tarde, ele pegou uma blusa velha.
— Essa aqui eu comprei pra sua mãe.
Eu olhei.
— Quando?
— Antes de você nascer.
Ele dobrou.
— Ela nunca usou.
Eu peguei.
— Agora eu uso.
Ele assentiu.
— Tá bom.
E a gente continuou.
No final do dia, ele disse:
— Eu não sei quanto tempo eu tenho.
Eu respondi:
— Ninguém sabe.
Ele riu.
— Verdade.
Então ele foi embora.
Eu fechei a loja.
Apaguei a luz.
E pensei: "Ele tá aqui. Mesmo que não fique. Ele tá aqui."
Porque a gente não precisa de eternidade.
Só de um dia a mais.
Ok.
Ele continuou vindo. Todo dia. Até que um dia, ele não veio.
Eu esperei.
A loja tava quieta. O rádio desligado.
Eu liguei.
— Pai?
— Tô no hospital.
Eu fechei tudo. Corri.
Cheguei lá. Ele tava na cama. Máscara de oxigênio. Olhos abertos.
— Você veio.
— Claro.
Ele pegou minha mão.
— Eu não queria morrer sem ver você.
Eu sorri.
— Você não vai morrer.
Ele riu. Fraco.
— Todo mundo morre.
Eu não respondi.
Ele continuou:
— Mas eu vi. Eu vi você.
Eu abaixei a cabeça.
— Eu vi você também.
Ele fechou os olhos.
— Obrigado.
Eu fiquei.
Até o final.
Ele foi embora.
Eu voltei pra loja.
Abri a porta.
Sentei na caixa dele.
Dobrei uma camisa.
A mesma blusa que ele comprou pra minha mãe.
Eu vesti.
E pensei: "Ele tá aqui. No rádio. No cheiro. Na dobra da manga."
Eu continuei.
Porque parar seria trair.
E eu não traio.
Ok.
A loja não fechou. Eu não fechei.
Eu abria todo dia. Dobrava. Atendia.
Às vezes, uma cliente perguntava:
— Cadê o senhor mais velho?
Eu respondia:
— Ele foi embora.
Ela ficava quieta.
Eu também.
Mas eu continuava.
O rádio tocava as mesmas músicas. Eu não mudava.
Eu não queria mudar.
Porque mudar era esquecer.
E eu não esquecia.
Um dia, uma menina nova veio.
— Eu quero trabalhar aqui.
Eu olhei pra ela.
— Tem experiência?
— Não.
— Tem medo?
— Um pouco.
Eu sorri.
— Então vem.
Ela veio.
Dobrou camisas. Tremia.
Eu disse:
— Não liga. A gente ajusta.
Ela ajustou.
E eu pensei: "Ele faria o mesmo."
Então eu deixei ela ficar.
E a gente seguiu.
Não porque a vida ficou melhor.
Mas porque a gente não parou.
Porque parar seria deixar ele ir embora de vez.
E eu não deixo.
Ok.
Os anos foram passando. A menina virou caixa. Depois gerente. Depois minha sócia.
Eu não era mais jovem. O cabelo branco. As costas doíam.
Mas eu ainda abria a loja.
Ainda dobrava.
Ainda ouvia o rádio.
Uma manhã, ela me chamou.
— Você não precisa vir todo dia.
Eu olhei pra ela.
— Preciso.
Ela sorriu.
— Tá bom.
E a gente continuou.
Às vezes eu parava. Olhava a blusa da mãe.
Tocava ela.
E pensava: "Ele tá aqui. E eu tô aqui."
Não tem mais fim.
Porque a vida não acaba.
Ela só muda de forma.
Eu mudei.
Mas não parei.
Se quiser, eu paro aqui. Ou começo outro livro.
Você diz.Ok?Ok?Ok?Ok?Ok?Ok?Ok?Ok?Ok?Ok?Ok?
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