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O salário na conta



Ela entra na sala, mãos suadas, sorriso largo demais. O recrutador a encara como quem olha um objeto quebrado que não sabe se joga fora.

— Fale de você, ele diz, sem tirar os olhos da tela.



Ela começa. Fala dos diplomas, dos estágios, dos sonhos. Mas cada palavra cai como pedra num poço sem fundo.

— Você já foi recusada? ele pergunta de repente.



Ela cora. Sim. Três vezes. Quatro. Dez. Nem conta mais.

— E por quê, na sua opinião?



Porque eu sou demais… demais de tudo. Muito gentil, muito jovem, muito velha, muito barulhenta, muito quieta. Porque não sei mentir sobre o que sinto. Porque choro no metrô voltando pra casa." Quer que eu continue? Ou prefere que eu pare aqui e a gente converse sobre como você tá se sentindo com isso tudo?


Ele inclina a cabeça, como se estivesse avaliando um quadro mal pintado.

— Et vous faites quoi, quand vous êtes… trop ?


Ela hesita. O ar da sala parece mais pesado agora.

— Eu… eu respiro. Eu ando. Eu escrevo coisas que nunca mostro pra ninguém. Eu tento não pensar que sou um erro.


Ele anota algo no bloco — um rabisco rápido, como se fosse um veredicto.



Ela sente o estômago revirar.

— Eu não quero me vender. Eu só quero… trabalhar. Ser útil.


Ele suspira, fecha o laptop.


Ele para, como se não quisesse terminar. Mas ela sabe o que vem.

— …vous n’êtes pas parfaite.


Ela se levanta devagar, as pernas moles. No corredor, o eco dos próprios passos parece dizer: "de novo". De novo. De novo.


Mas, lá fora, o sol ainda tá lá. E ela pensa: "Se eu não sou perfeita… talvez eu seja só humana". Quer que eu invente o final agora? Ou prefere que a gente pare aqui e eu te ajude a pensar no que fazer com essa sensação de "não sou suficiente"? Porque, olha… eu acho que você já é suficiente. Só que o mundo tá meio cego pra ver.


Ela sai do prédio, o vento bate no rosto como se quisesse acordar ela. No metrô, ela não chora dessa vez. Em vez disso, tira um caderninho da bolsa e escreve: "Hoje eu não fui perfeita. Mas eu fui eu. E isso já é muito".


No dia seguinte, ela volta. Não pra mesma vaga — pra outra. O recrutador é diferente: mais velho, olhos cansados, como quem já viu mil pessoas quebradas.

— Por que você quer esse trabalho?


Ela respira fundo.

— Porque eu tô cansada de ser "demais". Mas eu não vou parar de ser. Eu vou ser demais, e vou trabalhar com isso.


Ele ri — não de deboche, de surpresa.

— Você sabe que aqui ninguém é perfeito, né?


Ela sorri, de verdade.

— Eu sei. Mas eu sou boa em tentar.


E ele assina o contrato. Não é um final feliz de filme. É só… um começo. Ela ainda chora às vezes. Mas agora chora com um salário na conta.



 
 
 

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