Tradução livre do original de Edgar Allan Poe
- angelitaconzi
- 16 de jan.
- 5 min de leitura
Uma breve tradução da parte que analisaremos, a parte serve apenas para discutirmos a respeito:
Aqui está o trecho original em inglês (que está em domínio público) seguido de uma tradução direta que preparei, mantendo o tom sombrio e analítico de Poe:
Texto Original (Inglês)
"To muse for long unwearied hours, with my attention riveted to some frivolous device on the margin of a book, or in the typography; to become absorbed, for the better part of a summer’s day, in a quaint shadow falling aslant upon the tapestry or upon the floor; to lose myself, for an entire night, in watching the steady flame of a lamp, or the embers of a fire; to dream away whole days over the perfume of a flower; to repeat, monotonously, some common word, until the sound, by dint of frequent repetition, ceased to convey any idea whatever to the mind; to lose all sense of motion or physical existence, by means of absolute bodily quiescence long and obstinately persevered in: such were a few of the most common and least pernicious aberrations induced by a condition of the mental faculties, not, indeed, altogether unparalleled, but certainly bidding defiance to anything like analysis or explanation."
Tradução Live
"Meditar por longas e incansáveis horas, com a atenção cravada em algum adorno frívolo na margem de um livro, ou na sua tipografia; ficar absorvido, durante a maior parte de um dia de verão, por uma sombra peculiar que caía obliquamente sobre a tapeçaria ou sobre o chão; perder-me, por uma noite inteira, a observar a chama constante de uma lâmpada, ou as brasas de uma lareira; devanear dias inteiros sobre o perfume de uma flor; repetir, monotonamente, alguma palavra comum, até que o som, por força da repetição frequente, deixasse de transmitir qualquer ideia ao espírito; perder todo o sentido de movimento ou de existência física, por meio de uma absoluta imobilidade corporal, longa e obstinadamente preservada: tais eram algumas das mais comuns e menos perniciosas aberrações induzidas por uma condição das faculdades mentais que, na verdade, não era de todo sem paralelo, mas que certamente desafiava qualquer tipo de análise ou explicação."
Esse trecho que de "Berenice" é a prova definitiva sobre a "pesquisa incógnita".
Ele descreve exatamente o mecanismo de funcionamento da mente do narrador (Egaeus), que é uma extensão da mente do próprio Poe.
O que você chamo de "instinto de percepção" e de "resposta que precede a pergunta", Poe define aqui como uma monomania.
Observe como o texto confirma essa visão:
1. A Inversão da Importância (O Objeto Frívolo)
donde ele veria o mistério onde ninguém mais vê. Poe escreve:
"atenção cravada em algum adorno frívolo na margem de um livro, ou na sua tipografia "
Para o homem comum, a letra é apenas um meio para ler uma palavra. Para Poe, a forma da letra (a tipologia) é o mistério em si. Ele mergulha no detalhe físico para tentar encontrar a resposta de algo que a alma ainda não perguntou.
2. O "Incógnito" como Perda do Eu
o ser dele é "maleável". Veja como Poe descreve o ápice dessa observação:
"perder todo o sentido de movimento ou de existência física "
Nesse estado, o observador se torna o objeto. Ele deixa de ser um homem e passa a ser a "sombra oblíqua" ou a "chama da lâmpada". É nessa imobilidade absoluta que ele consegue captar o que é incógnito. Ele não está pensando; ele está "sendo" o mistério.
3. A Diferença entre Reflexão Comum e a Percepção de Poe
Poe faz uma distinção clara entre o que as pessoas chamam de "sonhar acordado" e o que ele faz:
Pessoa Comum: O objeto leva a um pensamento (o perfume da flor faz lembrar de um jardim).
Poe (Egaeus): O pensamento morre no objeto. Ele repete a palavra até que ela perca o sentido. Ele quer chegar na essência pura do som, antes da ideia. É o caminho inverso: ele quer a matéria-prima do universo, a "raiz" antes da árvore.
A Natureza do "Ser Maleável"
O que chamo de ser maleável, Poe descreve como um desafio para a "análise ou interpretação". Ele sabe que o que ele faz é perigoso porque, ao buscar a resposta de uma pergunta que ainda não se formulou, ele corre o risco de nunca mais voltar para a realidade.
Em Berenice, essa obsessão acaba focando nos dentes dela. Os dentes tornam-se a "resposta" para uma angústia existencial que ele não sabe explicar. É uma percepção que se torna uma patologia.
Poe não escreveu o terror final desta obra apenas para chocar pelo sangue, mas para ilustrar uma verdade psicológica devastadora sobre a condição humana.
Quando ele diz que sua obra vai ao encontro de "muitos pensamentos da vida e situações", ele está falando sobre a cegueira da obsessão.
O que ele esclarece através dessa "pesquisa" no corpo vivo de Berenice são três pontos profundos que se aplicam a muitas situações da nossa existência:
1. A Coisificação do Outro
Poe mostra como, em muitas situações da vida, paramos de ver as pessoas como seres humanos e passamos a vê-las como objetos de análise ou ferramentas para nossas necessidades.
Na obra, Egaeus não vê a dor de Berenice; ele vê apenas os dentes (a ideia).
Na vida real, isso acontece quando focamos tanto em um detalhe de alguém (um erro, uma característica, uma utilidade) que esquecemos que ali existe uma alma viva.
2. O Perigo da Abstração Extrema
Ele tinha uma "observação abstrata". Poe alerta que a mente, quando se isola demais no mundo das ideias (na "pesquisa incógnita"), torna-se cruel por omissão.
O "ser maleável" de que você falou pode se tornar perigoso porque perde a empatia. Para Egaeus, extrair os dentes era um ato intelectual, mas a realidade física era um ato de tortura. O autor mostra que o pensamento puro, sem o equilíbrio do sentimento, é uma forma de loucura.
3. A Resposta que Destrói o Objeto
Este é o ponto mais profundo que Poe esclarece: às vezes, o desejo de "saber" e "possuir" a resposta de algo é o que acaba por destruir a coisa amada.
Se você disseca uma flor para entender seu perfume, a flor morre.
Se Egaeus extrai os dentes para possuir a "ideia" de Berenice, Berenice deixa de existir para ele.
"A realidade cai sobre ele" no final porque a vida não pode ser reduzida a uma pesquisa de laboratório. O sangue nas roupas de Egaeus é o lembrete de que, enquanto ele "devaneava sobre o perfume de uma flor", ele estava, na verdade, esmagando a flor com as mãos.
O Contraste Final
Poe esclarece que a profundidade da vida reside no equilíbrio. Ele usa o horror para mostrar que a nossa percepção é uma faca de dois gumes:
Ela pode nos levar a entender o mistério do universo (o lado do "talento").
Ou pode nos cegar para o sofrimento que está bem na nossa frente (o lado da "monomania").
Poe realmente dominava a natureza humana porque sabia que todos nós temos um pouco de Egaeus: todos nós, em algum momento, ficamos tão obcecados por uma "pergunta não formulada" que ignoramos a realidade viva que nos cerca.
Você acha que, nesse sentido, a "percepção" de Poe era uma forma de aviso para que não nos perdêssemos dentro de nossas próprias mentes?

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